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FECCIB Nova e o Canil Municipal de Bebedouro: é possível conciliar eventos públicos e o bem-estar animal?

Uma reflexão necessária sobre o uso do espaço público

A FECCIB Nova nasceu para receber grandes eventos. Durante muitos anos, o complexo foi palco de exposições, feiras, shows e atividades que movimentaram a economia e o calendário cultural de Bebedouro. Com o encerramento da tradicional feira, entretanto, parte de sua estrutura passou a abrigar importantes serviços públicos municipais.

Hoje, o local concentra setores estratégicos da administração, como a Guarda Civil Municipal (GCM), equipes de Controle de Vetores e Zoonoses e, principalmente, a Divisão de Proteção e Bem-estar Animal, onde funciona o Canil e Gatil Municipal.

Essa nova realidade impõe uma pergunta inevitável: um espaço destinado à recuperação, tratamento e acolhimento de animais deve continuar convivendo com eventos de grande impacto sonoro?

A resposta merece uma discussão técnica, ética e jurídica.


O sofrimento invisível causado pelo excesso de ruído

Ao contrário do ser humano, cães e gatos possuem uma audição extremamente sensível.

Enquanto uma pessoa percebe sons em uma determinada faixa de frequência, cães conseguem detectar frequências muito superiores e com intensidade muito maior. Gatos apresentam capacidade semelhante, sendo ainda mais sensíveis a ruídos agudos.

Isso significa que aquilo que para o público representa apenas “música alta” ou “um show animado” pode representar para os animais:

  • crises intensas de ansiedade;
  • taquicardia;
  • tremores;
  • perda de apetite;
  • comportamento agressivo ou depressivo;
  • tentativas desesperadas de fuga;
  • automutilação;
  • agravamento de doenças;
  • abortos em fêmeas gestantes;
  • comprometimento da recuperação clínica de animais enfermos.

O problema torna-se ainda mais grave porque muitos dos animais acolhidos pela Divisão de Proteção e Bem-estar Animal já chegam traumatizados. Esses animais precisam justamente do oposto de um ambiente festivo: necessitam de tranquilidade, rotina previsível e redução de estímulos estressantes.



O paradoxo das políticas públicas

Bebedouro possui legislação proibindo fogos de artifício com estampido justamente para proteger:

  • pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA);
  • idosos;
  • pessoas hospitalizadas;
  • animais domésticos e silvestres.

Essa lei representa um importante avanço civilizatório.

Entretanto, surge um evidente paradoxo.

Se o município reconhece oficialmente que explosões sonoras causam sofrimento aos animais, como justificar a realização de eventos com sistemas de som de dezenas de milhares de watts praticamente ao lado do Canil e Gatil Municipal?

Embora fogos e shows tenham características diferentes, ambos produzem níveis elevados de pressão sonora capazes de desencadear intenso estresse em animais sensíveis.


Empresas que promovem festas neste local exibem sua clara alienação em relação aos direitos animais. Tiro no pé. 

A coerência entre políticas públicas exige que o mesmo princípio utilizado para restringir fogos também seja considerado no planejamento de eventos realizados nas proximidades de instalações destinadas ao bem-estar animal.



O problema não são os eventos

É importante deixar claro:

Eventos culturais são importantes.

Shows movimentam a economia.

Feiras geram empregos.

Encontros fortalecem a vida social da cidade.

O problema não está na realização dos eventos.

O problema está na escolha do local.

Quando uma área passa a sediar permanentemente uma unidade de proteção animal, sua vocação original precisa ser revista.

Planejamento urbano significa justamente adaptar os espaços públicos às novas funções que passam a desempenhar.


Uma oportunidade para reinventar a FECCIB Nova

Talvez este seja o momento ideal para que o complexo da FECCIB Nova assuma uma nova identidade.

Ao invés de depender exclusivamente de grandes eventos musicais, o espaço pode transformar-se em um grande centro de convivência, esporte e lazer para toda a população.

Entre diversas possibilidades, destacam-se:

  • campos de futebol;
  • quadras de vôlei de areia;
  • beach tennis;
  • tênis;
  • basquete;
  • atletismo;
  • caminhadas;
  • ciclismo;
  • skate;
  • bocha;
  • malha;
  • xadrez;
  • damas;
  • bilhar;
  • tênis de mesa;
  • eventos gastronômicos sem música em alto volume;
  • feiras de artesanato;
  • exposições culturais;
  • encontros educativos;
  • feiras de adoção responsável.

Essas atividades mantêm o complexo permanentemente ocupado, estimulam hábitos saudáveis e praticamente eliminam o impacto sonoro sobre os animais.


A Divisão de Proteção e Bem-estar Animal deve ser uma área de silêncio

Hospitais possuem zonas de silêncio.

Bibliotecas possuem regras de silêncio.

Escolas possuem horários específicos.

Da mesma forma, unidades destinadas ao acolhimento de animais deveriam contar com uma zona de amortecimento acústico ao seu redor.

Essa medida já é adotada em diversas cidades do mundo, especialmente quando canis públicos estão próximos de áreas urbanas.

Não se trata de impedir eventos.

Trata-se de compatibilizar interesses.

Uma distância adequada entre grandes sistemas de sonorização e instalações de acolhimento animal reduz significativamente o estresse dos animais e melhora suas condições de recuperação.


Possíveis soluções para Bebedouro

A discussão pode resultar em medidas simples e de baixo custo para o município.

Entre elas:

  • revisão do calendário de eventos realizados no complexo;
  • preferência por atividades esportivas e recreativas de baixo impacto sonoro;
  • criação de uma zona municipal de proteção acústica ao redor do Canil e Gatil;
  • instalação de barreiras vegetais com árvores de grande porte para auxiliar na redução do ruído;
  • implantação de barreiras acústicas onde tecnicamente viável;
  • monitoramento dos níveis de pressão sonora durante eventos;
  • limitação de horários para utilização de equipamentos de som;
  • estudo de transferência de grandes shows para locais mais afastados das instalações de proteção animal;
  • participação do Conselho Municipal de Meio Ambiente, da causa animal e da sociedade civil nas decisões sobre o uso do espaço.

Uma questão de coerência

A existência da Divisão de Proteção e Bem-estar Animal demonstra que Bebedouro reconhece a importância da proteção dos animais.

A proibição dos fogos de artifício com estampido reforça esse compromisso.

O próximo passo natural é ampliar essa lógica para todas as atividades que possam causar sofrimento evitável.

Não basta resgatar um animal das ruas.

É preciso oferecer condições adequadas para sua recuperação física e emocional.


Tranquilidade não significa invisibilidade


Garantir silêncio e tranquilidade aos animais acolhidos pela Divisão de Proteção e Bem-estar Animal não significa isolá-los da sociedade. Pelo contrário: um ambiente adequado deve caminhar lado a lado com políticas que aumentem sua visibilidade e ampliem suas chances de adoção.

Um dos maiores desafios enfrentados por canis e gatis públicos é justamente a falta de exposição dos animais. Muitos passam meses — e, em alguns casos, anos — aguardando por uma família simplesmente porque poucas pessoas sabem que eles existem. Quando uma unidade de acolhimento está localizada em um espaço pouco visitado ou distante da rotina da população, a adoção espontânea torna-se naturalmente menos frequente.


É preciso compreender que a adoção não acontece por acaso. Ela depende de encontros. Quanto mais pessoas conhecem os animais, maiores são as oportunidades de criar vínculos capazes de transformar uma visita em um novo lar.

Essa visibilidade pode ser construída de diversas formas. Presencialmente, com dias de visitação, eventos de adoção responsável, atividades educativas e integração com escolas, universidades e entidades da sociedade civil. No ambiente digital, por meio de fotografias de qualidade, vídeos, perfis individuais dos animais, campanhas permanentes nas redes sociais, divulgação no portal oficial da Prefeitura e parcerias com veículos de comunicação e influenciadores locais.

Em outras palavras, o Canil e Gatil Municipal não deve ser tratado como um local onde os animais ficam “escondidos” até que alguém apareça. Deve funcionar como um verdadeiro centro de proteção, recuperação e promoção da adoção responsável, onde cada cão e cada gato tenha sua história conhecida pela comunidade.

Proteger os animais significa oferecer um ambiente silencioso e seguro para sua recuperação, mas também abrir janelas para que a sociedade possa conhecê-los. Afinal, um animal invisível dificilmente será adotado. Já um animal visto, fotografado, apresentado e acolhido pela comunidade ganha algo muito mais valioso do que um abrigo: ganha a possibilidade de uma nova vida.


Esse conceito pode ser expandido para defender que Bebedouro transforme a Divisão de Proteção e Bem-estar Animal em uma vitrine permanente da adoção responsável, utilizando recursos como câmeras ao vivo (sem comprometer o bem-estar dos animais), catálogo online atualizado, QR Codes em espaços públicos, campanhas em painéis eletrônicos e parcerias com o comércio local para divulgar os animais disponíveis para adoção.

Isso aproximaria a população da causa sem expor os animais ao estresse de um ambiente barulhento.


Sobre legislação que proíbe o manuseio, utilização, queima e soltura de fogos de artifícios com estouro e estampidos

Bebedouro já possui lei que proíbe o manuseio, utilização, queima e soltura de fogos de artifícios com estouro e estampidos, assim como de quaisquer artefatos pirotécnicos de efeito sonoro ruidoso.

A autora da lei, a vereadora e protetora de animais, Mariangela Mussolini, comemorou na tribuna e ressaltou que a lei além de contribuir com o bem-estar animal, também atende a uma reivindicação de pais e professores de autistas, visto que eles são sensíveis ao barulho e sofrem toda vez que os fogos são soltos.

Bebedouro segue o exemplo de muitas outras cidades que proibiram os fogos com estampido. Há disponível no mercado fogos que não fazem barulho e já são utilizados em outras cidades nas festividades de fim de ano. Nesses lugares, as pessoas levam os pets para virada do ano, já que eles não têm mais o barulho para se assustarem

O valor da multa é aproximadamente R$ 1000,00 (10UFMs) e o valores arrecadados serão depositados na conta do FUNPROVIDA e utilizados para custeio das ações do órgão municipal responsável pelo controle de zoonoses e Conselho Municipal de Proteção Animal de Bebedouro.


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