Uma cidade é bem administrada quando é bem habitada
O brasileiro enquanto povo com história coletiva “recente”, como tantos outros povos com experiências, evolução social e senso de coletividade pouco desenvolvido (incluindo aqui os “Americanos”), tem o hábito de culpar seus gestores, seus políticos por suas graças e desgraças.
Porém estes povos esquecem o fundamental: políticos não se colocam em seus cargos sozinhos.
É o povo de acordo com sua sabedoria, ética e evolução intelectual, que promove quaisquer políticos bons ou maus. Grupos políticos maus não têm espaço em sociedades boas.
Não é nada incomum grupos de cidadãos se organizarem para apoiar políticos que sabidamente fedem mais que um gambá em fúria.
Me perdoem gambás, vocês são lindos, mas fedidos.
A explicação é simples: Estes grupos de cidadãos também se refastelam no fedor da ignorância, do egoísmo, da corrupção e da baixa evolução intelectual.
O vitimismo cívico dos brasileiros
[Mas não só dos brasileiros]
Há um erro confortável que atravessa gerações e discursos no povo brasileiro: o de tratar a corrupção como um vírus externo, algo que “contamina” o Estado sem jamais tocar quem o sustenta.
Apontamos o dedo para governos, parlamentos e gabinetes como se eles fossem entidades autônomas, desconectadas da sociedade que os elegeu.
Como se políticos eleitos fossem entidades alienígenas que desceram do céu e tomaram o poder à revelia da população.
Não são. Toda classe política é, antes de tudo, um espelho — imperfeito, sim — mas ainda assim um reflexo direto do nível de consciência cívica, tolerância ética e responsabilidade coletiva de um povo.
É sedutor culpar apenas “os de cima”
Essa narrativa absolve, anestesia e nos permite seguir a vida como se a degradação da ética pública fosse sempre culpa de terceiros.
Mas democracias não fracassam sozinhas.
Elas se deterioram quando o voto vira barganha emocional, quando a escolha do governante ignora caráter, histórico e compromisso com a cidadania, e quando a indignação só aparece depois do escândalo — nunca antes da urna.
Governos corruptos não surgem do acaso; eles são escolhidos, legitimados e, muitas vezes, até reconduzidos ao cargo em eleições seguintes. Como se caráter mudasse.
Este artigo parte de uma premissa incômoda, porém necessária: a qualidade da gestão pública é consequência direta da maturidade política da sociedade que a sustenta.
Ética, cidadania e respeito não são concessões do poder — são exigências permanentes de um povo que entende que votar é um ato moral, não apenas um direito formal.
Enquanto a população terceirizar sua responsabilidade e tratar a política como um problema alheio, continuará colhendo representantes que governam com o mesmo descaso com que foram escolhidos.
O convite aqui é claro: menos vitimismo cívico, mais consciência coletiva. A democracia não precisa apenas de bons governantes. Precisa, antes, de eleitores bons.
Características de povos que promovem maus políticos?
Normalização da corrupção como “parte do jogo”
Quando práticas ilegais ou antiéticas passam a ser vistas como inevitáveis — ou pior, como sinal de esperteza — a sociedade deixa de exigir padrões mínimos de integridade. A corrupção deixa de ser critério de reprovação eleitoral e passa a ser relativizada por discursos como “rouba, mas faz”.
Esse ambiente cultural cria terreno fértil para a repetição dos mesmos erros, legitimando governantes que sabem operar dentro dessa complacência moral.
Baixa educação política e cívica
Populações com pouco acesso à formação crítica sobre o funcionamento do Estado tendem a votar com base em slogans, emoções ou identidades superficiais.
Sem compreender o papel de cada cargo, os limites do poder e as consequências de más decisões administrativas, o eleitor transforma o voto em um gesto simbólico, não estratégico.
A ignorância política não é neutra: ela favorece quem governa mal, mas sabe se comunicar bem.
Personalização excessiva da política
Quando a política é reduzida a personagens carismáticos, salvadores da pátria ou “figuras fortes”, o debate sobre projetos, dados e resultados desaparece.
A população passa a defender pessoas, não ideias, e a crítica vira ataque pessoal.
Nesse cenário, fracassos administrativos são perdoados em nome da lealdade emocional, abrindo espaço para reeleições baseadas em culto à personalidade, não em desempenho.
Memória curta e tolerância ao fracasso
Sociedades que esquecem rapidamente escândalos, promessas não cumpridas e crises mal geridas tendem a repetir escolhas equivocadas.
QUANTAS PROMESSAS NOSSOS PRESIDENTES, GOVERNADORES, PREFEITOS, SENADORES, DEPUTADOS E VEREADORES FIZERAM EM CAMPANHA… NÃO CUMPRIRAM… E O POVO ESQUECEU!
A escrita acima, em caixa alta, foi proposital.
A ausência de acompanhamento contínuo do mandato — e não apenas durante o período eleitoral — permite que maus governantes se reinventem discursivamente sem jamais responder por seus resultados.
Sem memória coletiva, não há aprendizado político.
Dependência de favores políticos
Onde o acesso a direitos básicos depende da intermediação política, o voto deixa de ser livre e passa a ser condicionado.
Populações submetidas ao clientelismo votam por sobrevivência, não por convicção.
Essa dinâmica enfraquece a cidadania, transforma políticas públicas em moeda de troca e perpetua lideranças que governam para manter dependências, não para superá-las.
Além disso as coalizões de indivíduos que se agregam em torno de um candidato durante as eleições, quase sempre cobram um preço que é pago com nomeações a cargos dentro da estrutura de governo. Isso é uma das características mais deletérias (porque não dizer “nojentas”) da política brasileira.
Descrédito generalizado nas instituições
Quando a população acredita que “todos são iguais” e que nenhuma escolha faz diferença, a apatia se instala. Esse ceticismo extremo não gera renovação; gera acomodação.
Maus governantes prosperam em ambientes onde a indignação é difusa e a esperança de mudança é baixa, pois sabem que a descrença reduz a fiscalização social e desestimula escolhas mais criteriosas.
Transferência total de responsabilidade ao eleito
Populações que tratam o voto como um ato isolado — e não como o início de um compromisso — tendem a se eximir do acompanhamento posterior às eleições.
Ao delegar todo o dever ético ao governante e se retirar do processo de fiscalização das ações da gestão pública, o cidadão abdica de sua função fiscalizadora. Essa ausência de cobrança contínua cria governantes confortáveis com o erro, a ineficiência e o abuso de poder.
Confusão entre ideologia, identidade e interesse público
Quando escolhas eleitorais são guiadas exclusivamente por pertencimento ideológico, religioso ou cultural, o interesse coletivo fica em segundo plano.
Governantes passam a ser julgados pelo “lado” que ocupam, não pelo que entregam. A figura política pode ser um ser humano abjeto, mas se estiver no mesmo grupo ideológico, religioso ou cultural do cidadão, é nesse ser abjeto que ele votará.
Essa lógica de torcida política (como se política fosse futebol), protege maus gestores desde que “representem o grupo”, mesmo quando falham com a cidadania como um todo.

Gavião Peixoto, a foto de destaque deste artigo
Breves reflexões
A liderança de Gavião Peixoto (SP) como a cidade com melhor qualidade de vida no Brasil, segundo o Índice de Progresso Social (IPS Brasil 2025) — que avaliou os 5 570 municípios do país — não é fruto de um único fator isolado, mas de um conjunto de variáveis de gestão, sociais, ambientais e econômicas que, combinadas, oferecem um ambiente propício ao bem-estar da população.
Bebedouro (SP) conquistou a 97ª posição entre os 5.570 municípios brasileiros, com nota 67,48, destacando-se entre as 100 melhores cidades e alcançando o 66º lugar no estado, com bom desempenho em saneamento (ainda que haja bairros sem rede de águas pluviais e ainda falte água frequentemente – total ou diminuição de fluxo – em alguns bairros).
A maior fragilidade de Bebedouro é na inclusão social com isonomia. Certas regiões (e perfis populacionais) recebem mais atenção que outras.
1. Desempenho superior em indicadores sociais e ambientais
O IPS Brasil avalia 57 indicadores agrupados em três grandes dimensões: necessidades humanas básicas (como saúde, saneamento e segurança), fundamentos do bem-estar (incluindo educação, meio ambiente e acesso à informação) e oportunidades (como inclusão social e liberdades individuais).
Gavião Peixoto alcançou uma pontuação de aproximadamente 73,6 em uma escala de 0 a 100 — significativamente acima da média nacional — o que evidencia resultados sólidos em grande parte desses critérios.
2. Economia local robusta e inserção industrial estratégica
A presença de uma grande unidade industrial — notadamente da Embraer, fabricante de aeronaves — trouxe dinamismo econômico à cidade, ampliando oportunidades de emprego, renda e desenvolvimento tecnológico. Esse tipo de atividade produtiva contribui diretamente para indicadores de emprego e renda, bem-como para o poder aquisitivo médio dos moradores.
3. Tamanho populacional e qualidade das relações sociais
Com menos de 5 000 habitantes, Gavião Peixoto combina os benefícios de uma comunidade pequena — como menor pressão sobre infraestrutura e serviços públicos, e relações sociais mais próximas — com acesso eficiente a serviços essenciais. Em muitos casos, cidades de menor porte conseguem entregar melhores resultados em educação, saúde e segurança quando comparadas a grandes centros urbanos sobrecarregados.
4. Localização geográfica favorável
Situada no interior paulista, entre importantes polos educacionais e tecnológicos como São Carlos e Araraquara, a cidade usufrui de uma posição estratégica que facilita acesso a serviços regionais, mercados de trabalho mais amplos e integração econômica com áreas vizinhas, ampliando oportunidades sem sacrificar qualidade de vida.
5. Políticas públicas e serviços locais eficazes
Embora o tamanho reduzido limite a comparação com grandes metrópoles, Gavião Peixoto demonstra desempenho consistente em serviços públicos básicos — incluindo infraestrutura urbana, saúde e educação — o que contribui para um ambiente de vida mais seguro e confortável. Essa eficácia na oferta de serviços públicos tende a refletir-se diretamente nas pontuações dos indicadores sociais do IPS.
Em síntese, Gavião Peixoto lidera o ranking porque conseguiu equilibrar desenvolvimento econômico com qualidade social e ambiental, enquanto oferece uma vida comunitária estruturada e acesso a serviços públicos de qualidade — um reflexo direto de políticas públicas eficazes e de uma economia local diversificada.
Gavião Peixoto é uma cidade naturalmente privilegiada, mas que não teria usufruído destes privilégios sem gestões que os bem administrasse com estabilidade e previsibilidade ao longo das últimas décadas.
Sem gestões de qualidade, levadas ao executivo e legislativo local por uma população de igualmente de qualidade, Gavião Peixoto seria mais uma das cidades repletas de recursos potenciais mal administrados, ou sequer, notados.



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