Gatis e Canis: quando protegem os animais — e quando são apenas campos de concentração

Proteger não é confinar!

Existe uma imagem muito bonita associada aos abrigos de animais: cães e gatos resgatados, alimentados, tratados e esperando por uma família.

Essa imagem é verdadeira em muitos lugares.

Mas existe também uma realidade menos confortável.

Um abrigo pode nascer de uma boa intenção e, mesmo assim, transformar-se em um local de sofrimento quando recebe mais animais do que consegue cuidar.


Quando não existe quarentena, quando animais doentes permanecem junto dos saudáveis, quando falta atendimento veterinário, quando a limpeza não acompanha a quantidade de animais, quando a alimentação/hidratação não é adequada (em qualidade e quantidade) ou quando ninguém sabe exatamente quantos cães e gatos vivem naquele espaço, o que deveria ser proteção começa a se aproximar de confinamento.


É por isso que falar de canis e gatis para animais abandonados exige mais do que perguntar se existe uma construção com grades, casinhas e potes de ração.

A pergunta correta é outra: aquele lugar realmente consegue garantir uma vida minimamente digna aos animais que recebe?


Quem são os animais que chegam aos abrigos?

Cães e gatos recolhidos das ruas não formam um grupo homogêneo.

Alguns foram abandonados recentemente. Outros nasceram nas ruas. Há animais perdidos, vítimas de maus-tratos, atropelados, doentes, idosos, gestantes, filhotes e animais que passaram anos vivendo em situação de rua.

Também existem cães assustados ou agressivos por medo, gatos que não toleram ambientes superlotados e animais que chegam carregando doenças, parasitas ou sequelas de acidentes.


Há ainda uma situação que merece atenção: o animal recolhido pode não ser abandonado.

Ele pode estar simplesmente perdido ou indevidamente recolhido/enviado ao abrigo.


Por isso, identificação, registro, divulgação e tentativa de localização do tutor deveriam fazer parte do processo de acolhimento.

O CFMV recomenda que informações como local do resgate, sexo, idade estimada, porte, características físicas, condição de saúde e identificação do animal sejam registradas. A microchipagem é apontada como ferramenta importante para o manejo posterior.

Essa ficha pode parecer burocracia.

Não é.

Ela pode ser a diferença entre um animal permanecer anos em um abrigo e voltar para sua família.

Porém é um método caro.


Mas o simples cadastro do animal, junto aos cadastros das famílias que já são visitadas pelos visitadores sanitários/de saúde (ou profissionais similares), é um método muito efetivo de monitoramento, orientação e conscientização da população a respeito das responsabilidades em relação ao(s) animal(is) de estimação da casa.



Canil e gatil não podem ser simplesmente depósitos de animais

Leia também: Abandono animal pressiona abrigos no Brasil e expõe falta de políticas públicas baseadas em dados


A primeira diferença entre um abrigo e um depósito está na finalidade.

O depósito tenta guardar. O abrigo precisa cuidar, recuperar e encaminhar.

Isso muda completamente a estrutura necessária.


Um canil ou gatil adequado precisa considerar o número de animais, tamanho, idade, sexo, temperamento, condição clínica e comportamento. Cães e gatos também possuem necessidades diferentes e não deveriam ser tratados como se fossem simplesmente “animais em gaiolas”.

As diretrizes federais para abrigos públicos de cães e gatos destacam a necessidade de estrutura física adequada associada a programas de saúde, bem-estar, manejo e socialização.

O programa deve ser coordenado por médico-veterinário responsável técnico e incluir vacinação, controle de parasitas, exames, atendimento veterinário, avaliação comportamental e capacitação da equipe.

Saiba mais em


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O que uma estrutura adequada precisa ter?

Não existe um único modelo arquitetônico capaz de servir para todos os abrigos. Um município pequeno e um grande centro urbano terão necessidades diferentes.

Mas alguns princípios são básicos.

  • Separação segura entre cães e gatos
  • Cães e gatos precisam de ambientes próprios.
  • Além da diferença de comportamento, a separação reduz estresse e facilita o controle sanitário.
  • Dentro desses espaços, também é importante evitar a mistura indiscriminada de animais.
  • Machos e fêmeas, adultos e filhotes, animais sociáveis e animais extremamente assustados ou dominantes podem exigir manejos diferentes.

O CFMV chama atenção justamente para os problemas provocados pela concentração excessiva: disputa territorial, competição por alimento, estresse, medo, brigas e maior possibilidade de transmissão de doenças.


Quarentena e isolamento

Aqui está um dos pontos mais importantes.

Animal recém-chegado não pode simplesmente entrar no meio dos outros.


É necessário existir uma área de quarentena para observação dos recém-chegados e uma área de isolamento para animais doentes ou com suspeita de doenças transmissíveis, como FeLV*, em gatos, por exemplo.


As diretrizes do Ministério do Meio Ambiente e do CFMV tratam a quarentena como elemento essencial do funcionamento de um abrigo, justamente para impedir que um animal recém-resgatado introduza uma doença em toda a população alojada.

Sem isso, uma única infecção pode transformar um problema individual em uma crise coletiva.


A FeLV (vírus da leucemia felina) é um retrovírus que pode comprometer o sistema imunológico do gato e aumentar o risco de anemia, infecções e alguns tipos de câncer. A transmissão ocorre principalmente pelo contato próximo entre gatos, especialmente por saliva, lambedura, compartilhamento de recipientes e, em algumas situações, da mãe para os filhotes. Gatos infectados podem parecer saudáveis por algum tempo. ABFEL

E quanto tempo deve durar a quarentena?

Aqui há uma diferença importante: não existe um prazo único de quarentena que permita afirmar que um gato está “livre de FeLV”.

Para um gato resgatado cujo histórico é desconhecido, a recomendação prática é:

  • Na chegada: manter o gato separado dos demais, com utensílios próprios, até avaliação veterinária e realização do teste de FeLV/FIV.
  • Se o teste for negativo, mas houve possibilidade de exposição recente: o veterinário pode recomendar novo teste após pelo menos 30 dias, porque uma infecção muito recente pode ainda não ser detectada. catvets.com
  • Em ambientes coletivos, as diretrizes também recomendam retestagem em torno de 60 dias após o teste inicial, especialmente quando existe risco de exposição anterior desconhecida. catvets.com
  • Se o teste der positivo, o gato não deve ser simplesmente colocado junto aos gatos negativos. O resultado deve ser avaliado e, quando necessário, confirmado por métodos adicionais, porque a interpretação pode ser complexa. ABFEL

Portanto, para um gatil ou abrigo, a regrasegura é:

Gato recém-resgatado = gato de status sanitário desconhecido até ser testado e avaliado.

Se houver outros gatos no local, o isolamento inicial é uma medida de proteção para todos os outros gatos no local.



Piso, paredes, drenagem e limpeza

O abrigo precisa ser construído pensando em limpeza e desinfecção.

Pisos impermeáveis e resistentes, paredes laváveis, drenagem adequada, ralos e sistemas de escoamento são elementos importantes. As instalações devem também proteger os animais de chuva, vento, calor excessivo e outras intempéries.

Isso parece óbvio.

Na prática, é justamente onde muitos espaços improvisados começam a apresentar problemas.


Um local que era suficiente para cinco animais pode se tornar completamente inadequado para cinquenta.

E depois para cem.


A matemática do abrigo é cruel: cada novo animal aumenta a necessidade de espaço, comida, água, limpeza, medicamentos, mão de obra e atendimento veterinário.


Alimentação não é simplesmente colocar ração no pote

  • Alimentar é uma coisa.
  • Nutrir adequadamente é outra.

O abrigo precisa garantir água limpa e disponível, alimentação compatível com as necessidades dos animais e rotina capaz de evitar competição e desperdício.

Filhotes, idosos, animais debilitados, gestantes e animais em tratamento podem necessitar de cuidados alimentares diferentes.

E existe uma questão operacional importante: armazenamento.

Ração precisa ser protegida contra umidade, contaminação e pragas. Alimentos devem ser armazenados de maneira adequada e os recipientes precisam ser higienizados regularmente.

Quando o número de animais cresce sem planejamento, até uma tarefa aparentemente simples como distribuir alimento duas vezes por dia se transforma em uma operação pesada.


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Saúde: o abrigo precisa trabalhar antes da doença

O tratamento de animais doentes é indispensável.

Mas um abrigo de qualidade trabalha principalmente para evitar que todos fiquem doentes.

Vacinação, vermifugação, controle de ectoparasitas, exames, observação clínica, higiene, isolamento e acompanhamento veterinário fazem parte dessa lógica.

As diretrizes federais recomendam vacinação na entrada, controle de parasitas, exames de rotina e atendimento veterinário regular, incluindo situações de emergência.

A presença de um médico-veterinário responsável técnico é especialmente importante.

Não basta ter alguém que apareça quando existe uma emergência.

É preciso haver protocolos.

  • Quem pode ser colocado junto de quem?
  • Quando um animal pode sair da quarentena?
  • Quais sintomas exigem isolamento?
  • Como deve ser feita a limpeza?
  • Como serão administrados os medicamentos?
  • Quais animais estão aptos para adoção?
  • Que animais precisam de acompanhamento comportamental?

Essas decisões não devem depender da improvisação diária.


E a legislação?

Aqui é preciso evitar uma confusão frequente.

Existem normas federais, estaduais e municipais, além de diretrizes técnicas específicas para diferentes tipos de estabelecimento. Uma exigência dirigida a criadores ou estabelecimentos comerciais não deve ser apresentada automaticamente como se fosse uma regra específica para todo abrigo de animais abandonados.

No Estado de São Paulo, por exemplo, a Lei nº 17.972/2024 estabelece regras de proteção, saúde e bem-estar na criação e comercialização de cães e gatos, incluindo exigências relacionadas ao alojamento, controle de parasitas, exames veterinários e outras medidas.

O Decreto paulista nº 69.515/2025 estabeleceu prazo para adaptação de canis e gatis às exigências daquela lei, além de tratar especificamente da questão da esterilização enquanto aguardava decisão judicial.

Há também legislação federal recente diretamente relacionada ao manejo populacional. O Decreto nº 12.439/2025 criou o Programa Nacional de Proteção e Manejo Populacional Ético de Cães e Gatos, com ações de esterilização, microchipagem e registro, prevenção do abandono e redução do número de animais em situação de rua.

Portanto, quando se projeta ou reforma um canil ou gatil, não basta perguntar “qual é a lei?”.

É necessário perguntar: qual lei se aplica a este estabelecimento, nesta atividade e neste município?

Legislação há. Mas como vem sendo aplicada no seu município?

E, além do mínimo legal, quais são as boas práticas recomendadas para garantir bem-estar? Estão sendo cumpridas?

Essa diferença é fundamental.


O que é recomendado além do mínimo?

Um abrigo realmente preparado deveria pensar em uma estrutura que vá além da simples sobrevivência.

Áreas de exercício e enriquecimento ambiental, espaços de descanso, locais protegidos do clima, boa ventilação, iluminação adequada, redução de ruídos, áreas de convivência controlada e espaços para interação humana ajudam a diminuir o estresse.

Para os gatos, isso é particularmente importante.

Um gatil não deveria ser apenas uma sala cheia de gaiolas.

Prateleiras, esconderijos, diferentes níveis, áreas de descanso e possibilidades de afastamento do fluxo constante de pessoas podem permitir que o felino tenha algum controle sobre seu espaço.

Para os cães, o acesso a áreas externas, exercícios, socialização e interação individual são igualmente importantes.

Um animal que passa meses ou anos confinado em uma pequena baia pode desenvolver problemas comportamentais que tornam sua própria adoção mais difícil.

É um círculo vicioso.


O que encontramos na realidade

Aqui começa a parte incômoda.

Existem abrigos municipais bem estruturados. Existem organizações particulares extremamente cuidadosas. Existem projetos com veterinários, voluntários, campanhas de adoção, controle sanitário e boa gestão.

Mas também existem estruturas improvisadas.

  • Garagens.
  • Quintais.
  • Terrenos adaptados.
  • Prédios adaptados.
  • Canis construídos aos poucos.
  • Gatis sem espaço suficiente.
  • Locais onde uma pessoa começa resgatando três animais e, alguns anos depois, percebe que está cuidando de dezenas.

A intenção pode ser absolutamente legítima.

O problema é que boa intenção não cria espaço físico, não paga medicamentos e não impede uma epidemia.


O CFMV vem tratando a responsabilidade técnica, fiscalização e gestão de canis, gatis e abrigos como temas próprios da Medicina Veterinária do Coletivo.

Essa profissionalização é necessária.


Quando o abrigo vira um “campo de concentração animal”

A expressão é forte. Mas é real em muitas, mas muitas cidades

E deve ser usada com cuidado, não para atacar gratuitamente quem trabalha com proteção animal, mas para denunciar uma situação que pode acontecer quando o acolhimento perde sua capacidade de oferecer bem-estar.

Imagine dezenas ou centenas de cães e gatos vivendo permanentemente confinados.

  • Pouco espaço.
  • Pouco contato humano individual.
  • Doenças circulando.
  • Brigas.
  • Barulho permanente.
  • Fezes acumuladas.
  • Animais sem tratamento adequado.
  • Filhotes nascendo continuamente.
  • Animais que entram e nunca saem.
  • Poucas adoções.
  • Pouco dinheiro.
  • Poucos voluntários.
  • Mais resgates chegando.

Nesse ponto, o abrigo deixa de funcionar como uma ponte entre o abandono e uma nova família.

Ele se transforma em um sistema de armazenamento de animais vivos.

É essa situação que podemos chamar, criticamente, de um “campo de concentração animal”: não porque todo abrigo superlotado seja deliberadamente cruel, mas porque a concentração excessiva, sem recursos e sem saída, pode produzir sofrimento em escala.


E há uma pergunta que precisa ser feita: qual é o sentido de resgatar um animal da rua para colocá-lo em um ambiente onde sua qualidade de vida continuará ou será ainda mais comprometida?

O resgate é importante.

Mas o resgate sem capacidade de acolhimento pode apenas deslocar o problema.



Abrigo não pode ser o destino final

Um abrigo deveria ser, sempre que possível, uma etapa.

  1. O animal chega.
  2. É identificado.
  3. Passa por avaliação.
  4. Recebe tratamento.
  5. É vacinado.
  6. É castrado quando clinicamente indicado.
  7. É socializado.
  8. Tem seu comportamento avaliado.
  9. E começa a ser apresentado para adoção.
  10. Esse fluxo precisa funcionar.

Se a entrada é permanente e a saída praticamente inexistente, qualquer abrigo acaba chegando ao limite.

Por isso, adoção é parte da política de proteção animal.

Não é um detalhe.


A cidade precisa enxergar os animais


Existe uma contradição curiosa.

Às vezes o abrigo está cheio de animais disponíveis para adoção, mas ninguém sabe que eles existem.


  • O espaço fica escondido. Olá Cidade de Bebedouro!!!
  • A divulgação é irregular.
  • As fotografias são ruins.
  • Não existe catálogo atualizado.
  • Não há calendário de adoção.

O cidadão sequer sabe onde procurar.

Por que não levar os animais até onde as pessoas estão?

  • Feirinhas regulares.
  • Eventos em praças.
  • Parcerias com empresas.
  • Sites atualizados.
  • Redes sociais.
  • Campanhas em escolas.
  • Espaços de adoção próximos de áreas de grande circulação.
  • Painéis com fotografias e informações.
  • Parcerias com clínicas veterinárias e estabelecimentos ligados ao setor pet.
  • Um animal precisa ser visto para ter chance de ser escolhido.

E aqui existe uma diferença importante entre “mostrar animais” e promover adoção responsável.

A feira precisa apresentar informações sobre idade aproximada, porte, comportamento, vacinação, castração, necessidades especiais e condições para adoção.

A pessoa precisa escolher sabendo o que está levando para casa.


Educação é a parte que quase sempre fica esquecida

Se continuarmos recolhendo animais abandonados sem reduzir o abandono, estaremos enxugando gelo.

  • A prevenção precisa começar antes.
  • Escolas podem trabalhar guarda responsável.
  • Campanhas públicas podem explicar castração, identificação, vacinação e cuidados básicos.
  • Agentes públicos podem orientar moradores.
  • A fiscalização de maus-tratos precisa funcionar.
  • E o cidadão precisa compreender que abandonar um animal não é simplesmente “deixar na rua”.
  • É transferir para a sociedade uma responsabilidade que deveria continuar com o tutor.

O Programa Nacional instituído pelo Decreto nº 12.439/2025 coloca justamente entre seus objetivos a prevenção do abandono e da acumulação de cães e gatos, além do manejo populacional ético.

Isso muda a lógica.

O poder público precisa trabalhar para reduzir a entrada de animais no sistema, e não apenas construir lugares para acomodá-los.


Saúde pública também está nessa história

A discussão não termina no bem-estar animal.

Existe uma conexão direta entre saúde animal, saúde humana e ambiente.

Abrigos superlotados favorecem a transmissão de doenças entre animais e podem aumentar riscos sanitários. O próprio CFMV chama atenção para doenças infectocontagiosas e zoonoses em situações de alta concentração de animais.

Por isso, o monitoramento por equipes de saúde, vigilância sanitária, zoonoses e profissionais veterinários pode ser decisivo.

O município precisa saber:

  • Quantos animais existem?
  • Onde estão?
  • Quantos são castrados?
  • Quantos estão disponíveis para adoção?
  • Quantos estão doentes?
  • Quantos chegam por mês?
  • Quantos são adotados?
  • Quantos retornam aos tutores?
  • Quantos permanecem no abrigo?
  • Sem números, a política pública vira impressão.

Com números, torna-se possível planejar.

Visite o site Medicina de Abrigos Brasil – Infodados de Abrigos Animais


O protetor não pode ser transformado em abrigo municipal informal

Talvez este seja um dos pontos mais delicados da realidade brasileira.

Milhares de animais são mantidos vivos graças ao trabalho de pessoas que dedicam dinheiro, tempo, espaço e energia para resgatá-los.

São os protetores independentes.

  • Eles pagam consultas.
  • Compram ração.
  • Levantar recursos para cirurgia.
  • Abrigam animais em suas próprias casas.
  • Organizam adoções.
  • Cuidam de animais que ninguém mais quis.

É um trabalho que frequentemente ultrapassa aquilo que seria razoável exigir de uma única pessoa.

Mas existe um risco nessa dependência.


O protetor não pode ser utilizado como substituto permanente da política pública.


A sociedade pode — e deve — apoiar quem protege animais.

O município, entretanto, precisa ter políticas estruturadas para controle populacional, atendimento veterinário, fiscalização, educação, identificação, acolhimento e adoção.

Caso contrário, o sistema passa a depender do heroísmo individual.

E heroísmo dos Protetores de Animais não é política pública.


O desafio de Bebedouro e região

Para cidades de porte pequeno e médio, o problema pode parecer menor do que em grandes centros.

Não é necessariamente.

Uma estrutura municipal limitada, somada ao abandono, reprodução descontrolada, falta de castração, pouca fiscalização e baixa taxa de adoção, pode rapidamente produzir um problema crônico.

Bebedouro e os municípios da região precisam olhar para a questão de maneira regional.

Cães e gatos não conhecem limites administrativos.

A solução também não precisa conhecê-los.

Programas compartilhados de castração, identificação, atendimento veterinário, educação, adoção e apoio aos protetores podem ser mais eficientes do que cada município tentar resolver sozinho exatamente o mesmo problema.

E existe uma oportunidade que costuma ser desperdiçada: transformar os animais disponíveis em adoção em parte visível da vida urbana.

Um espaço bem cuidado, acessível e próximo da circulação das pessoas pode funcionar como ponto permanente de conscientização e adoção.

Não para transformar animais em vitrines.

Para aproximar a população de uma realidade que muitas vezes permanece escondida atrás dos muros de um canil ou gatil.


A cidade que cuida dos animais também cuida das pessoas

Um bom abrigo precisa proteger o animal.

Mas também precisa proteger quem trabalha ali.

Funcionários, veterinários e voluntários estão diariamente expostos a sujeira, mordidas, arranhões, doenças, estresse e desgaste emocional.

Por isso, equipamentos de proteção, protocolos, treinamento e condições adequadas de trabalho também fazem parte de uma estrutura responsável.

A Medicina Veterinária do Coletivo vem justamente ampliando essa discussão, envolvendo manejo populacional, saúde pública, responsabilidade técnica em abrigos e até os impactos emocionais do trabalho com animais.

Não adianta cobrar cuidado dos voluntários enquanto se oferece a eles uma estrutura impossível de administrar.


O futuro precisa ser menos abrigo e mais prevenção

A existência de um grande canil municipal pode parecer uma demonstração de preocupação com os animais.

Às vezes é.

Mas um indicador ainda melhor seria outro:

  • Quantos animais deixaram de precisar ser recolhidos?
  • Quantas famílias foram orientadas?
  • Quantos animais foram castrados?
  • Quantos foram identificados?
  • Quantos retornaram aos seus tutores?
  • Quantos encontraram uma nova família?
  • Quantos casos de maus-tratos foram fiscalizados?
  • Quantos estudantes receberam educação sobre guarda responsável?

Esses números dizem muito mais sobre a eficiência de uma política pública do que simplesmente a quantidade de animais que cabem dentro de um canil.

O trabalho dos protetores merece respeito — e estrutura

Quando falta política pública, alguém precisa preencher o vazio.

É aí que aparecem os protetores.

  • Eles resgatam.
  • Cuidam.
  • Alimentam.
  • Transportam.
  • Pagam.
  • Divulgam.
  • Choram quando perdem.
  • Comemoram quando conseguem uma adoção.
  • E continuam.

Esse esforço merece reconhecimento, mas também merece uma coisa ainda mais importante: apoio institucional.

O poder público não deveria esperar que o cidadão comum financie sozinho uma obrigação coletiva.

O município precisa criar mecanismos de parceria, cadastro, atendimento, fiscalização e apoio aos protetores, sem abandonar o controle técnico e sanitário dos animais.

Porque cuidar de animais abandonados não é simplesmente uma questão de compaixão.

É uma questão de saúde pública, educação, planejamento urbano, responsabilidade ambiental e cidadania.

E existe uma regra bastante simples para avaliar qualquer canil ou gatil: se o animal entra e não existe uma estratégia real para que ele saia para uma família, alguma coisa está errada.


Abrigo bom é aquele que acolhe sem acumular.

  • Que trata sem esconder.
  • Que controla a população sem crueldade.
  • Que oferece espaço compatível.
  • Que separa animais quando necessário.
  • Que mantém registros.
  • Que permite acompanhamento.
  • Que mostra os animais à comunidade.
  • Que estimula adoções responsáveis.

E que trabalha, acima de tudo, para que o próximo cão ou gato abandonado não precise chegar até lá.

Essa é a diferença entre abrigar animais e simplesmente acumular animais.

E essa diferença pode ser medida todos os dias pela condição de vida daqueles que não têm voz para reclamar.


Encontrou um canil ou gatil em condições inadequadas?

Denuncie!

Principais Opções de Denúncia
  • Polícia Militar (190): Use em situações de emergência ou flagrante de crime acontecendo no momento.
  • Disque Denúncia (181): Serviço gratuito que permite denúncias anônimas em diversos estados.
  • Delegacia Eletrônica de Proteção Animal (DEPA): No Estado de São Paulo, você pode registrar online pelo site da Delegacia Eletrônica de Proteção Animal, exigindo identificação (com opção de solicitar sigilo). Recomendado.
  • Delegacia de Polícia Civil: Qualquer distrito policial pode e deve registrar boletim de ocorrência sobre maus-tratos contra animais (Art. 32 da Lei Federal nº 9.605/1998).
  • Ministério Público (MP): É possível acionar a Promotoria de Justiça do Meio Ambiente do seu estado através dos sites oficiais ou ouvidorias, anexando fotos, vídeos e relatórios. Recomendado.
  • Ouvidoria Municipal / Secretaria de Meio Ambiente ou Bem-Estar Animal: Como o canil/gatil é público (municipal), a prefeitura deve ser notificada, mas lembre-se de que os órgãos internos às vezes necessitam de fiscalização externa (como MP ou Polícia) para evitar ocultação de fatos.
  • Polícia Militar Ambiental: Acionada para fiscalizar abrigos ou condições inadequadas de fauna sob tutela do Estado/Município. Recomendado.

Em qualquer opção de denúncia, compartilhe-a com a rede de protetores do seu município, encaminhe o fato à Imprensa local e regional, vereadores, Rede de Protetores, e siga acompanhando os resultados das ações do órgão que recebeu a denúncia.

Porque frequentemente as denúncias são tratadas como assunto de menor importância e até ocultadas, como já citado, pelos agentes públicos.


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