Catarina
Adotei Catarina em outubro de 2023.
Naquele momento, eu poderia dizer que fui eu quem a salvou. Seria bonito. Seria até socialmente aceitável. Mas não seria a verdade inteira.
A verdade é que Catarina me salvou de mais formas do que eu jamais consegui salvá-la.
Ela entrou na minha vida como quem chega de mansinho, mas logo tomou tudo com uma força silenciosa, dessas que não fazem barulho e, ainda assim, mudam o eixo da casa, da rotina, do coração.
Algumas presenças não ocupam espaço: elas inauguram um mundo. Catarina foi isso.
Não era uma gata comum. E eu não digo isso porque a amava. Digo porque até quem a conhecia por pouco tempo percebia.
Quantas vezes ouvi a mesma frase, dita com espanto sincero, quase em tom de riso e reverência: “essa gata não é normal.” E não era mesmo.
Catarina tinha uma inteligência que desconcertava.
Parecia entender mais do que devia. Parecia antecipar gestos, humores, silêncios.
Às vezes, eu tinha a nítida sensação de que ela tentava estabelecer diálogo comigo, como se faltasse apenas uma tradução entre a linguagem dela e a minha. Catarina não apenas me olhava. Ela parecia responder.
Era, sem exagero, a gata mais inteligente que já vi.E havia nela algo que ultrapassava a esperteza animal.
Era presença. Era percepção. Era vínculo.
Aprendeu sozinha a fazer xixi e cocô no vaso sanitário — algo que mais de uma pessoa testemunhou, não como anedota, mas como espanto.
Porque Catarina parecia carregar uma centelha rara, quase impossível de explicar sem parecer exagero.
Mas o amor também tem esse problema: quando é verdadeiro, ele sempre parece exagerado para quem olha de fora.
E os olhos dela…
Os olhos dela eram os mais lindos que já vi.
Não era só a beleza.
Era o que havia por trás daquela beleza. Havia consciência. Doçura. Mistério.
Uma espécie de bondade luminosa, como se ela tivesse vindo ao mundo com uma delicadeza antiga, dessas que a brutalidade humana nunca mereceu tocar.
Até hoje, eu sinto a presença dela na nossa cama.
Isso pode parecer apenas saudade se acomodando na memória do corpo.
Talvez seja. Mas quem já amou de verdade um animal sabe: há ausências que continuam ocupando lugar.
Às vezes, no meio da noite, ainda parece que ela está ali. O peso sutil.
A companhia silenciosa. A impressão viva de que ela apenas mudou de dimensão, mas não de afeto. Porque o amor não entende de sepultamento.
O amor continua. Mesmo quando tudo o mais foi interrompido.
Em maio de 2025, em Bebedouro, Catarina foi assassinada.
Envenenada.
Escrever isso ainda fere. Talvez sempre vá ferir. Existem palavras que não servem apenas para narrar; servem para rasgar de novo o que nunca cicatrizou. E essa morte me transformou.
Ainda não sei dizer se para melhor ou para pior. Talvez as duas coisas.
Talvez o trauma seja exatamente isso: algo que nos quebra e, ao mesmo tempo, nos obriga a enxergar o mundo sem o conforto das ilusões.
Eu vi o último olhar dela, enquanto corríamos para a clínica veterinária.
Há cenas que não acabam quando terminam.
Elas continuam acontecendo dentro da gente. Repetem-se no escuro, no silêncio, nos dias aparentemente normais.
O último olhar dela vive em mim como um relâmpago congelado.
Um segundo que não passa. Um pedido que talvez não pudesse ser atendido. Uma despedida que ninguém deveria ser obrigado a carregar.
E o que veio depois da dor foi outra violência: a indiferença.
Como se a morte da Catarina fosse pequena demais para merecer esforço, dignidade ou justiça.
Uma rede de protetoras se mobilizou, de uma das quais ouvi uma consideração que doeu porque parecia resumir toda a postura desta cidade provinciana:
Em Bebedouro-SP não se faz justiça por animais.
Talvez essa frase seja dura demais. Talvez seja real demais.
O fato é que, quando a crueldade encontra a omissão, o que morre não é só um animal.
Morre também uma parte da confiança. Uma parte da inocência. Uma parte da crença de que a verdade, por si só, bastaria.
Mas a minha Catarina não pode ser reduzida à forma como morreu.
Isso seria permitir que a maldade tivesse a última palavra.
E ela não terá.
Catarina foi amor em estado puro. Foi inteligência incomum. Foi companhia, espanto, diálogo, beleza, luz.
Foi presença viva e transformadora.
Foi daquelas criaturas raras que nos atravessam para sempre e deixam em nós uma espécie de marca sagrada. Eu a adotei, sim. Mas a verdade mais funda é outra: ela também me adotou.
E me ensinou mais sobre ternura, conexão e sentido do que muita gente ensina em uma vida inteira.
Separados, mas nunca distantes. Nunca e sempre tocando e tocado.
Se existe algum consolo possível, ele mora numa imagem de paz: Catarina, esse anjinho do bem, deve estar agora no céu dos gatos — inteira, leve, feliz, para sempre.
Sem medo, sem dor, sem veneno, sem maldade humana ao redor.
Correndo em algum campo de luz reservado às almas puras, dessas que passam pela Terra rápido demais, mas deixam amor suficiente para durar por muitas vidas.
E talvez essa seja a única justiça que ninguém pode impedir:
Ela se foi conhecendo o que é o verdadeiro amor.
A justiça ainda será feita.









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