Cao veludo poema protecao animal 2

 

Eu tive um cão. Chamava-se Veludo:
Magro, asqueroso, revoltante, imundo,
Para dizer numa palavra tudo
Foi o mais feio cão que houve no mundo.

Recebi-o das mãos dum camarada.
Na hora da partida, o cão gemendo
Não me queria acompanhar por nada:
Enfim — mau grado seu — o vim trazendo.

O meu amigo cabisbaixo, mudo,
Olhava-o… o sol nas ondas se abismava…
“Adeus!” — me disse,— e ao afagar Veludo
Nos olhos seus o pranto borbulhava.

“Trata-o bem. Verás como rasteiro
Te indicarás os mais sutis perigos;
Adeus! E que este amigo verdadeiro
Te console no mundo ermo de amigos.”

Veludo a custo habituou-se à vida
Que o destino de novo lhe escolhera;
Sua rugosa pálpebra sentida
Chorava o antigo dono que perdera.

Nas longas noites de luar brilhante,
Febril, convulso, trêmulo, agitado
A sua cauda — caminhava errante
A luz da lua — tristemente uivando

ToussenelFiguier e a lista imensa
Dos modernos zoológicos doutores
Dizem que o cão é um animal que pensa:
Talvez tenham razão estes senhores.

Lembro-me ainda. Trouxe-me o correio,
Cinco meses depois, do meu amigo
Um envelope fartamente cheio:
Era uma carta. Carta! era um artigo

Contendo a narração miúda e exata
Da travessia. Dava-me importantes
Notícias do Brasil e de La Plata,
Falava em rios, árvores gigantes:

Gabava o steamer que o levou; dizia
Que ia tentar inúmeras empresas:
Contava-me também que a bordo havia
Mulheres joviais — todas francesas.

Assombrava-me muito da ligeira
Moralidade que encontrou a bordo:
Citava o caso d’uma passageira…
Mil coisas mais de que me não recordo.

Finalmente, por baixo disso tudo
Em nota breve do melhor cursivo
Recomendava o pobre do Veludo
Pedindo a Deus que o conservasse vivo.

Enquanto eu lia, o cão tranquilo e atento
Me contemplava, e — creia que é verdade,
Vi, comovido, vi nesse momento
Seus olhos gotejarem de saudade.

Depois lambeu-me as mãos humildemente,
Estendeu-se a meus pés silencioso
Movendo a cauda, — e adormeceu contente
Farto d’um puro e satisfeito gozo.

Passou-se o tempo. Finalmente um dia
Vi-me livre d’aquele companheiro;
Para nada Veludo me servia,
Dei-o à mulher d’um velho carvoeiro.

E respirei! “Graças a Deus! Já posso”
Dizia eu “viver neste bom mundo
Sem ter que dar diariamente um osso
A um bicho vil, a um feio cão imundo”.

Gosto dos animais, porém prefiro
A essa raça baixa e aduladora
Um alazão inglês, de sela ou tiro,
Ou uma gata branca sismadora.

Mal respirei, porém! Quando dormia
E a negra noite amortalhava tudo
Sentí que à minha porta alguem batia:
Fui ver quem era. Abrí. Era Veludo.

Saltou-me às mãos, lambeu-me os pés ganindo,
Farejou toda a casa satisfeito;
E — de cansado — foi rolar dormindo
Como uma pedra, junto do meu leito.

Preguejei furioso. Era execrável
Suportar esse hóspede importuno
Que me seguia como o miserável
Ladrão, ou como um pérfido gatuno.

E resolvi-me enfim. Certo, é custoso
Dizê-lo em alta voz e confessá-lo
Para livrar-me desse cão leproso
Havia um meio só: era matá-lo

Zunia a asa fúnebre dos ventos;
Ao longe o mar na solidão gemendo
Arrebentava em uivos e lamentos…
De instante em instante ia o tufão crescendo.

Chamei Veludo; ele seguia-me. Entanto
A fremente borrasca me arrancava
Dos frios ombros o revolto manto
E a chuva meus cabelos fustigava.

Despertei um barqueiro. Contra o vento,
Contra as ondas coléricas vogamos;
Dava-me força o torvo pensamento:
Peguei num remo — e com furor remamos

Veludo à proa olhava-me choroso
Como o cordeiro no final momento,
Embora! Era fatal! Era forçoso
Livrar-me enfim desse animal nojento.

No largo mar ergui-o nos meus braços
E arremessei-o às ondas de repente…
Ele moveu gemendo os membros lassos
Lutando contra a morte. Era pungente.

Voltei à terra — entrei em casa. O vento
Zunia sempre na amplidão profundo.
E pareceu-me ouvir o atroz lamento
De Veludo nas ondas moribundo.

Mas ao despir dos ombros meus o manto
Notei — oh grande dor! — haver perdido
Uma relíquia que eu prezava tanto!
Era um cordão de prata: — eu tinha-o unido

Contra o meu coração constantemente
E o conservava no maior recato
Pois minha mãe me dera essa corrente
E, suspenso à corrente, o seu retrato.

Certo caira além no mar profundo,
No eterno abismo que devora tudo;
E foi o cão, foi esse cão imundo
A causa do meu mal! Ah, se Veludo

Duas vidas tivera — duas vidas
Eu arrancaria àquela besta morta
E àquelas vís entranhas corrompidas.
Nisto sentí uivar à minha porta.

Corrí, — abrí… Era Veludo! Arfava:
Estendeu-se a meus pés, — e docemente
Deixou cair da boca que espumava
A medalha suspensa da corrente.

Fôra crível, oh Deus? — Ajoelhado
Junto do cão — estupefato, absorto,
Palpei-lhe o corpo: estava enregelado;
Sacudi-o, chamei-o! Estava morto.

 

Luís Caetano Pereira Guimarães

 

Diplomata, poeta, romancista e teatrólogo brasileiro nascido na cidade do Rio de Janeiro, Estado do Rio, fez brilhante carreira literária na fase de transição do romantismo para o parnasianismo.  

Filho de Luís Caetano Pereira Guimarães, português, e de Albina de Moura, brasileira, estudou no Colégio Pedro II e iniciou o curso de direito em São Paulo.  

Aos dezesseis anos escreveu seu primeiro romance, Lírio Branco (1862), dedicado a Machado de Assis. 

Partiu para São Paulo, a fim de continuar os estudos preparatórios, e lá recebeu uma carta de Machado de Assis animando-o a prosseguir na carreira das letras.  

Mudou-se para o Recife, onde foi colega de Tobias Barreto e Castro Alves, e fez o curso de Direito (1864-1869).  De volta ao Rio, desenvolveu intensa atividade e fez grande sucesso na imprensa como folhetinista e comediógrafo.  

Com seu prestígio lançou-se numa campanha em favor do voto para as mulheres e da igualdade de direitos para ambos os sexos, integrando um movimento feminista denominado de Nova Legião.  

Sua situação no jornalismo e nas letras, embora brilhante, não lhe proporcionava os meios para viver estavelmente e aceitou o convite do poeta e amigo Pedro Luís, então ministro dos Negócios Estrangeiros, para atuar na diplomacia como secretário de Legação em Londres.  

Depois passou por vários outros postos, servindo  (1873-1894) em Santiago do Chile, Roma, Caracas, Lisboa e Veneza.  

Membro fundador da Academia Brasileira de Letras, ao se aposentar da carreira diplomática (1894), onde chegou ao posto de ministro plenipotenciário, passou a morar em Lisboa, onde morreu.  

Autor de um famoso soneto “Visita à Casa Paterna”, sua obra poética resumiu-se principalmente nos livros Corimbos (1869) e Sonetos e Rimas (1880).  

Também publicou os perfis biográficos de Carlos Gomes e Pedro Américo, além de numerosos textos de circunstâncias, comédias e o romance humorístico A família Agulha.

Nascimento 17 de fevereiro de 1845, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro 

Falecimento 20 de maio de 1898 (idade 53 anos), Lisboa, Portugal

Bibliografia

https://www.academia.org.br/academicos/luis-guimaraes-junior/biografia

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